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O conto "Nove Horas" foi publicado pela Editora Scortecci na antologia de poesias, contos e crônicas "Uma história no seu tempo", em 2007. Para ver os outros contos de Vitor Fernandes, clique em Textos e escolha o título desejado.

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Nove Horas

O Relógio da Central marcava seis em ponto, mas para mim isso nada significava. Aquele final de tarde podia se prolongar o quanto quisesse, pois mais uma vez eu estava desempregado. Com o final da obra todos os empregados daquela construção haviam sido dispensados e eu, que trabalhara em mais de cinquenta, percebi que deveria começar tudo de novo, mas dessa vez algo estava diferente...
Depois de tantos anos labutando e conseguido apenas sobreviver, sem uma única vez ter voltado para junto de minha família, a qual deixara no interior, em busca da tão sonhada fortuna da cidade grande, senti-me derrotado. Outra vez olhei para o relógio, que da sua altivez, comandava a vida de tanta gente, apressando seus passos e ditando o ritmo de milhares de pessoas que ali passavam. Tive a sensação de ele que estava parado e a mudança dos seus ponteiros não produzia nada mais do que a constatação de que meu tempo terminara.
Caminhei lentamente em meio ao frenesi da multidão agitada, entrei na estação e escolhi um banco para sentar. Não queria tomar um trem lotado, cheio de gente falando, correndo, vivendo. Desse banco eu continuava a ver o relógio, porém o que mais me chamava à atenção era o movimento dos trens, que apresentavam a sua imponência metálica ao longe, quando surgiam dentre os velhos barracões que se sustentavam ao lado da ferrovia, afinal de contas, deles dependiam milhões para ir e vir. Quando as portas se abriam muitos saiam e muitos entravam, dando a impressão de que todo mundo trabalhava ou estudava longe de casa.
Uma cena pincelou o meu pensamento e imaginei que um desses trens poderia me levar para uma viagem definitiva. Diferente de todo mundo, que os utilizavam diariamente, eu poderia tomá-lo pela última vez, cravando o horário da minha chegada à última estação da vida. Durante horas remoí essa idéia, enquanto os comboios de aço passavam com um barulho característico... Tá-tá-tá-tá... Um tá-tá-tá-tá que me atraía cada vez mais.
Antes que a próxima composição viesse, levantei-me e caminhei em direção à linha férrea. Parei bem na borda, no início da plataforma, pois o trem só conseguiria parar vários metros à frente. O Relógio da Central já indicava nove horas da noite e a quantidade de pessoas na estação tinha reduzido bastante. Meu coração parecia que ia explodir, principalmente quando ouvi o apito que vinha se aproximando. Um pulo resolveria tudo...
Tive tempo de ver a expressão do condutor que fechou os olhos quando ameacei me jogar. Ouviu-se um apito incomum, tão forte que me assustei. Não tive coragem... Recuei... De novo me senti derrotado e à minha frente abriu-se a porta do último vagão. Estava vazio! Somente eu entrei e as portas se fecharam, como se estivessem esperando um convidado especial.
Sentei no último banco, ao lado da janela, que permitia observar o senhor do tempo. Ninguém mais entrou. Partimos para uma longa viagem, que duraria pelo menos duas horas e olhei pela última vez o relógio, rápido, pois o trem estava em movimento. Curiosamente enxerguei nove horas e estranhei como o tempo demorava a passar. Senti o cansaço daquele último dia de trabalho e me ajeitei no banco. A vontade era mesmo de deitar, mas encontrei uma posição confortável. As luzes dos prédios, das casas, das ruas iam passando como se tudo estivesse em movimento.
Na primeira parada dois homens entraram no vagão em que eu estava. Cumprimentei-os, porém eles nem notaram a minha presença. Eu podia ouví-los perfeitamente, mas era tanta palavra diferente, tanta gíria, uma verdadeira língua estrangeira, que eu entendi pouca coisa. Percebi apenas que falavam sobre um assassinato, mais que isso, um verdadeiro massacre. Comentavam o acontecido com detalhes e, um ar de satisfação, revelava que eles eram os autores da façanha. Fiquei chocado, revoltado, ao saber que uma família inteira tinha sido morta. Pai, mãe e filhos, "apagados" pelos traficantes. Lembrei da minha família, tão distante...
Em meio aos pensamentos nem percebi a saída daqueles bandidos. O trem estava parado com as portas abertas e quando estas começaram a se fechar, alguém chegou correndo impedindo o seu curso. Elas se abriram novamente e rapidamente entraram várias pessoas carregando muitos pacotes. O trem partiu e logo as crianças começaram a correr de um lado ao outro do vagão. De nada adiantava os olhares reprovadores do casal que cuidava delas, mas que não podia sair do lugar, impedido por tantas compras. Eram três crianças, alegres e espertas, que através de suas travessuras provocavam risos em mim e, certamente em qualquer um que estivesse ali naquele momento, até mesmo o homem e a mulher tinham que se conter para não dar a impressão que estavam gostando da festa. Senti uma enorme felicidade, que me fez esquecer a passagem anterior. Meus sentimentos foram contagiados pela visão do que parecia ser uma família feliz. Em instantes fui do inferno ao céu e, no meu cantinho, solitário, sem participar daquela brincadeira toda, fiquei rindo à toa, mesmo quando eles desembarcaram na próxima estação. Como é bom viver com quem a gente ama...
Pela janela observei que um senhor, de meia idade e bem vestido, iria entrar no trem. Torci para que entrasse no meu vagão e então pudéssemos conversar um pouco. Realmente ele entrou, mas logo em seguida, entrou também um menino, bem pequenino, de roupas sujas e descalço, que foi direto ao seu encontro. O senhor sentou-se no primeiro banco e o menino, mesmo com o trem já em movimento, permaneceu de pé ao seu lado. Eles começaram a conversar e o garoto estendeu sua mãozinha na direção do homem. Fiquei curioso e me aproximei dos dois, sentando-me imediatamente atrás deles. Como das outras vezes, a minha presença era ignorada e para eles eu não estava presente. Pude acompanhar o diálogo bem de perto. Cheguei no exato momento em o pequeno contava tristemente a sua história de vida apesar do olhar desinteressado do homem, que estava pronto para lhe dar um trocado e despachá-lo o mais rápido possível. Ouvi o garoto dizer que pedia porque seu pai saíra de casa para procurar emprego e nunca mais voltara. Minhas vistas se escureceram...
 Escutei um apito incomum... Abri os olhos, assustado! Eu estava de pé, na borda da plataforma de embarque e o maquinista acionava desesperadamente o apito do trem, que se tornava imensamente alto no pátio da estação. Sua feição era de apreensão e só mudou quando dei um passo para trás. A composição parou, bem à frente, como eu tinha previsto e a porta do último vagão se abriu diante de mim. Como era normal, várias pessoas saíram e outras tantas entraram. Tive tempo ainda de olhar para o Relógio da Central que marcava nove horas em ponto. Entrei no vagão e me sentei em um dos lugares que estavam vagos, era próximo a uma janela, como eu gostava. O trem esperou o tempo programado e partiu quando as portas se fecharam. Não resisti e olhei para trás, procurando ver as horas no relógio iluminado.
Eram nove e três! Percebendo que o meu tempo não tinha ainda acabado, decidi que buscaria as minhas coisas e, com o dinheiro recebido na demissão, voltaria para casa, para junto da minha família, naquela mesma noite.

Vitor Fernandes