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O miniconto "Solidão", apresentado na tela inicial do site foi publicado pela Editora Guemanisse no livro "Minimalistas", em 2006. Abaixo o miniconto "A sombra" mantém a característica intimista do texto anterior. Para ver outros minicontos de Vitor Fernandes, clique em Textos e escolha o título desejado.

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A sombra

Acelerei os passos quando percebi a penumbra avançar sobre aquele final de tarde cinzento. Uma garoa fina molhava o meu casaco, que apesar de envelhecido, protegia-me do frio e da umidade.
O problema não era o vento, nem a chuva, mas o obstáculo de atravessar a ladeira à frente, que mal iluminada era capaz de instigar a imaginação de qualquer um que a cruzasse naquele momento. Como sempre, minha preocupação era comigo mesmo e com o que pudesse me atingir. Que perigo estaria atrás daquelas árvores? Debaixo daquelas marquises? Quem estaria deitado ao lado dos sacos de lixo, impedindo a minha marcha tranquila pelas calçadas?
A única alternativa era caminhar pela rua... Olhos bem abertos... A respiração, quase imperceptível, não poderia atrapalhar a sensibilidade dos ouvidos. O silêncio só era quebrado pelo barulho de pés, meus próprios pés, pisando os gravetos que, indefesos ao vendaval do meio-dia, preenchiam todos os espaços da via de paralelepípedos.
Já estava na metade do percurso quando, ao meu lado, um estranho ruído deixou-me estagnado. Fechei um pouco os olhos para tentar enxergar algo à minha volta, porém a luminosidade dos postes não atravessava o que sobrara das copas das árvores. Senti um calafrio... Sensação esta motivada por algo como um sopro morno e perfumado a tocar meu pescoço. Não consegui mover um músculo sequer.
Meus pensamentos oscilavam entre seguir adiante ou retornar. A distância? Era a mesma. A escuridão? Intensa nos dois sentidos. O medo... Impedia minha decisão. Inúmeras imagens preenchiam minha mente, quando percebi uma sombra passando à minha frente. Silenciosa... Ela acelerou quando tentei movimentar a cabeça.
Intui que não queria ser vista e que talvez estivesse mais temerosa do que eu. Isso foi o suficiente para me tirar do estado em que me encontrava, gerando forças para uma reação. Gritei. Chamei sem saber a quem. Saí em direção ao vulto que corria à medida que eu me aproximava.
Fomos em direção ao final da ladeira e, quando cheguei à rua transversal, um clarão ofuscou-me a visão. Não havia mais árvores. As luzes, alaranjadas, iluminavam como sol a pino. Esperançoso de que alguém me apontasse o que eu procurava, percebi que as pessoas, desconfiadas, caminhavam apressadamente de um lado para o outro, insensíveis à minha necessidade.
Assim como eu, elas estavam preocupadas somente consigo mesmas e com o que pudesse atingi-las. Suas sombras... As suas sombras se misturavam! Iam e vinham. Vinham e iam. Atordoado, olhei ao redor e não reconheci a sombra que antes procurava. Estranhamente... Tinha a certeza de que ela estava lá...
Retornei à ladeira muitas outras vezes na ânsia de entender o significado de tudo aquilo. E mesmo sem respostas imediatas, assim continuarei fazendo, pois algo me diz que aquela sombra ganhará forma à medida que eu deixar de enxergar somente a sombra que existe dentro de mim.

Vitor Fernandes